segunda-feira, junho 12, 2006

Esposa de vitrine


Um ponto de encontro atípico funciona como elemento de status em São Paulo - e talvez em outras cidades do mundo -, uma clínica pediátrica para as crianças mais abastadas. Mães lindíssimas, com roupas impecáveis e cabelos ultraescovados flanam pelo enorme salão decorado com design de primeira linha para os pequenos. Ao fundo, uma melodia infantil tocada harmoniosamente em tom de vibrafone. Os pequenos anjos choram, querendo o colo de suas mães, mas são obrigados a se contentar com o amparo de babás entediadas, vestidas de branco dos pés à cabeça. Para cada criança, uma babá comandada pela dondoca que se afeta em ares maternais. Elas se encontram no consultório e discutem a vida dos anjinhos, citando com perfeição os sintomas e nomes dos remédios receitados pelo pediatra superstar. Mulheres quase perfeitas, que não fazem nada de suas vidas, mas que vivem com a agenda ocupada por milhares de compromissos de suma importância. O maior deles: burilar a beleza nos melhores salões e spas.
No passado, a esposa ideal para se apresentar aos amigos e à sociedade era aquela que aparentava fragilidade, presa em espartilhos que, de tão desconfortáveis, causavam sérios problemas de coluna e esmagamento do pulmão. Mulheres que se sentiam enfraquecidas e desmaiavam em eventos sociais, legitimando seu pedigree; e que seguiam a etiqueta aristocrática do culto à inutilidade. Séculos depois, parece que a mulher de sociedade, mesmo livre do espartilho, não mudou. Suas amarras são outras, ela é escrava da chapinha, dos saltos, da malhação, dos cremes anti-age, anticelulite, an-ti-tu-do. Ela precisa continuar alimentando sua inutilidade, sua futilidade, embora deva ter assuntos agradáveis para a conversa no lounge com os amigos. Esta mulher precisa frequentar os lugares certos, nas horas certas, para desfilar sua superioridade paga pelo marido orgulhoso desta exposição. Um troféu dourado que mostra o quanto este homem é poderoso e picudo.

Graças a Deus, a história feminina também foi protagonizada por uma minoria batalhadora, que não engrossou o coro ditado pela sociedade de sua época. Salve Leila Diniz que, em plena repressão de costumes, apresentou sua gravidez com orgulho num biquíni de praia e mostrou em entrevista exclusiva para o Pasquim- numa época em que não se ouvia o que as mulheres tinham a dizer - que mulher também é um ser pensante. Salve também os homens que se fascinam com as diferenças entre os sexos e que acham que mulher completa, ao invés de diferir - como a equipe do Pasquim que quis ouvir o que a Leila Diniz tinha a dizer. São esses homens contra a corrente, que acreditam que mulher não é troféu, nem tem que ser frágil para ser feminina, os verdadeiros machos da espécie.

Queridas, me desculpem a franqueza, mas inutilidade não tem nada a ver com erotismo e sedução, pelo menos não para os homens e mulheres da vida real. Se sujar, brincando com uma criança no colo, amparar o bonitinho quando ele está com medo ou doente, é uma experiência sem igual. Fora que transar exige esforço físico, faz suar e descabela. Pelo bem da humanidade, a mulher inútil e intocável deveria existir apenas num panteão.

Um comentário:

Bianca Balsini disse...

Embora concorde com vc a respeito da inutilidade e futilidade reinantes nas altas camadas da nossa sociedade (que tem grana pra isso), e também na classe média (que não tem grana e se endivida toda para viver de aparência), culpo também a mídia, que através de inúmeros comerciais, novelas, programas de auditório, etc cultuam e incentivam esse tipo de atitude, pretendendo ditar moda e comportamento deste nível, ridicularizando e excluindo quem não se enquadre... Assim como também, têm muito mais homens fúteis e hipócritas nos dias de hoje, que querem desfilar com sua "bonequinha de luxo", incentivam o consumismo desenfreado, a malhação somente pela estética, e não para terem ao seu lado uma mulher bonita e bem cuidada, mas para poderem "tirar onda" com seus amigos e colegas de trabalho... No fim, muitas vezes se descobre que é um relacionamento fracassado, onde a traição, a falta de diálogo do casal, o descaso na criação dos filhos, reinam absolutos.
Entendo que a vaidade saudável é importante para toda a mulher: querer estar cheirosa, com a pele e cabelo viçosos, levemente maquiada para ocasiões importantes, malhar para ter saúde, auto-estima, desestressar... Enfim, querer antes de tudo se gostar, estar com o corpo e a mente saudáveis para ela mesmo, e só depois para seu companheiro (o resto da sociedade vem em último lugar)... Entendo que a mais bonita das mulheres é aquela que também preza seu interior, a cultura adquirida nos livros, jornais, diálogos, aprendizado nas instituições de ensino, que formam o seu perfil, a inteligência, o poder questionador, reivindicador, a articulação dos pensamentos, a esperteza, o carisma e até o poder de sedução (com muito mais armas)... Fora o fato de que quanto mais materialista, menos espiritualizada, o que é triste porque, sem querer aqui pregar ou fazer discurso religioso, Nosso Pai nos ensinou a termos outros valores, bem mais profundos e dignos...